domingo, 26 de maio de 2013

16 - Autodefinição


Sou o escritor do assassino
que está dentro de nós,
e um profissional do ensino
a combater o atroz.
Investigador do negro lado
à procura do certo no errado.

Sou o escritor da devassidão,
dos libidinosos anseios,
a par das dores no coração
de quem quer abraços e beijos.
Analiso o que nos tenta
para acabar com a tormenta.

Nas minhas histórias há morte
premeditada e sexo triste.
Ilustro o violento corte
que na realidade se assiste
entre a carne e a alma
de quem desconhece a calma.

Os meus heróis são conhecedores.
Amam e são amados.
Distinguem todas as cores
dos espíritos condenados.
Não pretendendo ser Jesus
tentam propagar a luz.

terça-feira, 26 de março de 2013

15 - Afinidade

Dizes que a nossa afinidade
não é por aí além.
Bem maior é o que nos detém.
Pura ilusão, a unidade.
Não te faz sentido o que proponho.
Vês-me embriagado num sonho.

O delírio de um homem triste,
ingénuo e tolo,
um cerebrozinho num rolo
de ilusões, a acreditar que existe
um elo entre o nosso contraste,
em vez do óbvio desastre.

Que elo é este, que reclamo,
esta afinidade que reivindico
e faz de mim um homem rico?
Da árvore da vida, um ramo
floresce sem motivo
e eu pasmo, cativo.

O pólen voa. Perfume ébrio.
Aroma da alma velada,
fugaz como a fada
de um terrível mistério
que a condenou ao invisível,
largando um rasto de mel.

Só eu distingo e saboreio.
Outros seguem a máscara
sórdida que te ampara
da dor no teu seio
e impede que vaciles,
escondendo o teu calcanhar de Aquiles.

Distingo por sermos semelhantes.
Somos apaixonados, intensos,
à mesma loucura propensos
por termos corações gigantes.
Embora o escondas no teu jogo,
partilhamos o mesmo fogo.

No teu medo, só mostras fogo de artifício,
fragmentos de chamas concentradas
a iluminar as enseadas
da catarse, o pior vício.
O meu incêndio livre é para ti um choque;
nem suportas que eu te toque!

domingo, 17 de março de 2013

14 - Pessoas Iguais em Caminhos Diferentes


Somos duas pessoas iguais
que escolheram caminhos diferentes
e sem reunião. Das nossas mentes
são claros os sinais.

Escolheste o medo, a fuga e a raiva,
a catarse e a negação.
Manterás fechado o coração
para que a tua torre não caia.

Eu julgo fazer o contrário,
de peito aberto e sem defesas.
As chamas do amor terei sempre acesas
por maior que seja o calvário.

Posso ser despedaçado, feito em pó,
ou em carne picada numa poça de sangue.
Por mais que o sofrimento se alongue,
aceito‑o sem piedade nem dó.

De mim próprio não serei viúvo.
Nunca escolherei o teu luto.
Da vida sorverei todo o fruto!
Nada fará o meu horizonte turvo.

sábado, 2 de março de 2013

13 - Silêncio Branco

Um homem caminhava no silêncio branco,
libertava vapor entre os lábios gelados,
acreditava ter o coração franco
a impedir‑lhe a alma de se desfazer aos bocados.
O rasto na neve seria em breve coberto.
Sozinho e desapercebido. O rumo, incerto.

Frio, isolamento e desorientação.
O rosto sulcado pelas contrações de dor.
Agarrava‑se ao orgulho, a um espírito de missão,
à fé de o desejarem como fonte de calor,
embora só recebesse chicotadas de gelo.
Nenhuma alma ou corpo lhe lançava um apelo.

Não era objeto de desejo, nem sequer de necessidade.
Era ele quem necessitava, desejava e morria
de desgosto, paralisado, a sufocar de saudade.
O coração franco não o retirava da gélida via!
Não era o suficiente na química do desejo.
Alma desfeita, células cristalizadas. A privação do beijo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

12 - Lenses


Sometimes I don’t know
whether I’m on denial
or sensing the flow
of something vital.

I am a sad person,
unsatisfied with life
by stupidity and conviction.
Melancholy is my vice.

Proudly unhappy,
seeking something else
beyond my shabby
existence in stealth.

So I begin
the strife to be noticed.
Vanity is my sin,
presumption, my acid.

But, now and then,
in spite of this nothingness,
a grain of sand
glows clear, in bless.

«Life is wonderful»,
it says to me.
«Just follow the rule
to make you free

of despairs and sorrows,
loneliness and grief:
you need light to cast shadows.
This is more fact than belief!»

Denial or perspective?
A change of lenses?
Can I be objective
about the soul’s senses?

My life needs light,
joy and fulfilment,
but aiming too high
makes me lose the moment.

Instead of the horizon
my lenses should focus
on detail and action,
like a child who’s curious.

Life is made of seconds,
like cells are made of stardust.
Light shines in tiny microns
glued with love and trust.






domingo, 28 de outubro de 2012

11 - Sincronização


Minha querida,
real ou imaginária,
próxima ou desconhecida,
toda extraordinária,
tudo o que um homem quer,
absoluta mulher:

Quero o teu ritmo,
a tua melodia,
do forte ao pianíssimo,
os acordes da harmonia,
escalas e arpejos,
sorrisos e beijos.

Quero escutar‑te,
os sons e os silêncios,
embevecer‑me com a obra de arte
que me faz arder em mil incêndios.
Quero decorar a partitura
que me leva à loucura.

Sincronizar‑me contigo,
nota a nota, ponto e contraponto.
Nunca falhar no que te digo,
maravilhar‑te no que te conto,
trazer‑te alegria e fogo,
a cada toque tirar‑te o fôlego.

Dar‑te‑ei o que precisas
no momento e na forma exatas.
Coreografias intuitivas
brotarão em cascatas
de borboletas, flores,
êxtases e torpores.

A música do nosso sangue,
captada nos olhos e cheiros,
no ímpeto de cada arranque
dos nossos diálogos de parceiros,
será o motivo da nossa existência,
a nossa fé e a nossa ciência.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

10 - Afasta-te


Afasta‑te!
Não te quero perto.
Cala‑te!
Não me digas o que é certo!
Tu, quem te julgas?
Com que direito me acusas?

A vida é minha!
Não te diz respeito.
Há uma linha
para além da qual não aceito
o mais bondoso intruso.
Chega de abuso!

Este território é meu.
Não o partilho. Sou  livre.
A confiança ardeu,
em ti, que aqui tive,
ao quereres dar lições,
ou interferir em decisões.

Inventas teorias.
Dizes que sofro.
Julgas‑te o messias
da felicidade e do conforto.
Descreves os meus comportamentos
como fugas a tormentos.

Atreves‑te a dizer quem sou,
que me conheces,
para onde vou.
Dissertas mil e uma teses
sobre uma personalidade
que nada tem a ver com a realidade.

Na tua arrogância cega
dizes agir por amor.
Acreditas ser um ato de entrega
descreveres o alegado terror
no qual dizes que vivo,
com o coração cativo.

Pressionas‑me com a fantasia
de uma ligação entre nós,
e que a minha racionalidade fria
me impede de ouvir a voz
das nossas células,
entranhas e estrelas.

Queres arrastar‑me na tua tolice,
julgando fazer‑me feliz.
Não te apercebes da aldrabice
na qual assentas a tua força motriz.
Nada nos liga. Somos diferentes.
Alucinas. A ti próprio mentes.

Afasta‑te. Não te imponhas.
Não te esforces. Não nos forces.
Nem me faças passar vergonhas
com a tua arrogância e poses
doutrinárias, messiânicas,
nem com devaneios sobre paixões orgânicas.

És tu quem sofre. És tu quem foge.
És tu quem nada sabe da vida.
Afasta‑te, para longe de mim, veloz.
Não julgues ser uma mente esclarecida,
muito menos sobre o núcleo da minha pessoa.
Vai. Sai daqui. Voa!